Eu não me tornei louco, nem me tornei herói
porque o amor que eu tinha pela minha mulher
e pelos meus filhos fundiu-se,
não à coragem orgânica, física,
que poderia tornar-se fanática,
mas, com a coragem da consciência política,
que é uma outra forma de loucura e de heroísmo,
nem sempre reconhecida pelos homens.
Benedicto Monteiro
sábado, 4 de fevereiro de 2012
IDÉIAS DO RIO MAR
Longe, bem longe
Existe a Terra de meu nascimento
Encharcada de água
De mata e de luz!
É a Terra verde, a Terra Moça
Que sofre a insatisfação
Do grande rio
Que procura insatisfeito:
Verdes campos, verdes leitos
E as lagoas policromadas
De cortinas verdes
E janelas azuis!
Mas, a Criação
Deu uma vida estranha
A esse rio gigante
Que tem uma montanha
Para repouso da cabeça
E que tem o mar
Para o descanso
Dos seus grandes pés
Deu paredões
P'ra ele brincar de saltos
E deu a tristeza
E a serenidade soturna
E manhosa dos igarapés
Deu praias lindas
Brancas e morenas
Pra ele brincar
E beijar impetuosamente
Com suas ondas formadas
Pelo vento
Deu mangues verdes, sombreados
Onde ele deve passar
Cochichando baixinho
E sonolento
Planícies verdes
Alcatifadas de flores
Chuvas de asas
E plumas multicores
Como tapetes mágicos
Descendo do infinito
Deu muitas sensações extremas:
Desde o limo aveludado
Das margens tristes e serenas
Até à lage faiscante de granito
Mas o rio, o grande rio
Que esconde monstros no seu leito
Prefere ficar assim insaisfeito
Brincando de jujú com as ilhas
Que aparecem e desaparecem
Nos igarapés
Prefere não ter uma pedra
Para repouso da cabeça
E empurrar o mar
O grande mar
Eternamente com seus grandes pés...
Benedicto Monteiro
Assinando
Benedicto Vilfredo
Bandeira Branca
Editora Zelio Valverde
Rio de Janeiro
1945
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Bandeira Branca - livro de poemas
sábado, 28 de janeiro de 2012
SÚPLICA
SÚPLICA – BENEDICTO MONTEIRO
Draga
cava o rio
retira de Mim
estas pedras
Suga de Mim
estas lamas
abre funda vala
pra água poder passar
Não
Não quero morrer de praias
Não quero me encher de arraias
Não quero morrer de lodo
Não quero me encher de mar.
Construção Poética inspirada no romance Primeira Manhã de Dalcídio Jurandir
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Cancioneiro do Dalcídio - Benedicto Monteiro
fragmento do livro AQUELE UM
...Nego as mortes! Nego e renego as mortes, todas as mortes. As mortes de ficar calado, as mortes de ver a água correr, as mortes de ver o rio sempre passar, as mortes gerais dos homens que envelhecem. E nego e renego as mortes. Eu só afirmo a vida. As minhas afirmativas só são de bem-querer, de bem-viver e de bem lutar....
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
O ENTERRO DA BORBOLETA
Era uma louca idéia
Enterrar no chão a borboleta
As cores
As asas
E todo o movimento
Cavou o buraco
Jogou dento o inseto
Cobriu tudo com terra
Mas na hora de responder
Disse que tinha enterrado no chão uma semente
Que semente?
Não!
Não foi uma semente
Foi um mistério.
Construção Poética de Benedicto Monteiro – CANCIONEIRO DO DALCÍDIO - inspirado na prosa de Dalcídio Jurandir – TRÊS CASAS E UM RIO
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Cancioneiro do Dalcídio - Benedicto Monteiro
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
fragmento do livro TRANSTEMPO
"..para viver nesse mundo, não levo muito em consideração espaço que é transponível a cada piscar de olhos e a cada passo. O tempo para mim já não existe mais com suas convenções cronológicas e calendárias. Por isso não tenho história, vivo no agora, como contemporâneo do passado e do futuro."
- Benedicto Monteiro
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Fragmentos do romance “ A Terceira Margem” - terceiro volume da tetralogia amazônica do Romancista Benedicto Monteiro
...A água vinha por todos os lados. Fora das águas também não se enxergava. Eram suas cores negras que molhavam...
...Houve então, a invasão das águas. Parecia que a noite inteira era líquida e se derramava por cima do barco. Pra mim, paresque ficamos balançando por perto dalguma margem. Tanto o tempo não era tempo, como a noite não era noite e mata não era mata. A chuva, de tanto negra que era, tinha ficado meio-branca ou sem cor, paresque. Foi aí que me deu um relâmpago que rasgou o mundo em dois pedaços. Não sei se fogo entrou por dentro de mim ou se fui eu que entrei por dentro do fogo. A luz me cegou de repente e me alumiou inteiro por dentro. O branco da luz virou de novo paresque em todas as cores. Cores vivas, o senhor pensa. E o negro de tanto negro virou de novo numa estranha claridade. Claridade que paresque era mais de pensamento...
...O silêncio era como a luz que a gente não via, mas que também não escutava.
...e, quanto mais eu remava, mais a água ficava da cor da noite, da cor da luz, da cor do céu e da cor do vento. Cismei logo que fosse as maranhas dalgum encante, cobra-grande, boiúna, yara ou encante só da própria água.
...Tudo era espaço e tempo vago. Verde e vago. Verdevagomundo. Fi aí que eu me perdi na mais pura claridade. Era paresque claridade do verde, da água, da noite e do silêncio. Pensei que era a morte, que eu estava morto. Pensei que eu estava bem no fundo. Mas, nesse mesmo instante, neste justo e exato momento, foi que a água e o céu se abriram e surgiu uma praia branca.
Todos os verdes e todas as cores se resumiram naquela praia. E não tinha princípio nem fim. Era uma distancia. Era paresque uma margem...mas uma outra margem.
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