sábado, 4 de fevereiro de 2012

Depoimento sobre sua prisão em 1964

Eu não me tornei louco, nem me tornei herói
porque o amor que eu tinha pela minha mulher
e pelos meus filhos fundiu-se,
não à coragem orgânica, física,
que poderia tornar-se fanática,
mas, com a coragem da consciência política,
que é uma outra forma de loucura e de heroísmo,
nem sempre reconhecida pelos homens.

Benedicto Monteiro

IDÉIAS DO RIO MAR







Longe, bem longe 

Existe a Terra de meu nascimento 

Encharcada de água 

De mata e de luz! 



É a Terra verde, a Terra Moça 

Que sofre a insatisfação 

Do grande rio 

Que procura insatisfeito: 

Verdes campos, verdes leitos 

E as lagoas policromadas 

De cortinas verdes 

E janelas azuis! 



Mas, a Criação 

Deu uma vida estranha 

A esse rio gigante 

Que tem uma montanha 

Para repouso da cabeça 

E que tem o mar 

Para o descanso 

Dos seus grandes pés 

Deu paredões 

P'ra ele brincar de saltos 

E deu a tristeza 

E a serenidade soturna 

E manhosa dos igarapés 



Deu praias lindas 

Brancas e morenas 

Pra ele brincar 

E beijar impetuosamente 

Com suas ondas formadas 

Pelo vento 

Deu mangues verdes, sombreados 

Onde ele deve passar 

Cochichando baixinho 

E sonolento 



Planícies verdes 

Alcatifadas de flores 

Chuvas de asas 

E plumas multicores 

Como tapetes mágicos 

Descendo do infinito 

Deu muitas sensações extremas: 

Desde o limo aveludado 

Das margens tristes e serenas 

Até à lage faiscante de granito 



Mas o rio, o grande rio 

Que esconde monstros no seu leito 

Prefere ficar assim insaisfeito 

Brincando de jujú com as ilhas 

Que aparecem e desaparecem 

Nos igarapés 

Prefere não ter uma pedra 

Para repouso da cabeça 

E empurrar o mar 

O grande mar 

Eternamente com seus grandes pés... 



Benedicto Monteiro 

Assinando 

Benedicto Vilfredo 

Bandeira Branca 

Editora Zelio Valverde 

Rio de Janeiro 

1945

sábado, 28 de janeiro de 2012

SÚPLICA



SÚPLICA – BENEDICTO MONTEIRO





Draga


cava o rio


retira de Mim


estas pedras





Suga de Mim


estas lamas


abre funda vala


pra água poder passar

Não
Não quero morrer de praias
Não quero me encher de arraias
Não quero morrer de lodo
Não quero me encher de mar.

Construção Poética inspirada no romance Primeira Manhã de Dalcídio Jurandir

fragmento do livro AQUELE UM

...Nego as mortes! Nego e renego as mortes, todas as mortes. As mortes de ficar calado, as mortes de ver a água correr, as mortes de ver o rio sempre passar, as mortes gerais dos homens que envelhecem. E nego e renego as mor­tes. Eu só afirmo a vida. As minhas afirmativas só são de bem-querer, de bem-viver e de bem lutar....

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O ENTERRO DA BORBOLETA





Era uma louca idéia

Enterrar no chão a borboleta

As cores

As asas

E todo o movimento



Cavou o buraco

Jogou dento o inseto

Cobriu tudo com terra

Mas na hora de responder

Disse que tinha enterrado no chão uma semente



Que semente?



Não!

Não foi uma semente

Foi um mistério.



Construção Poética de Benedicto Monteiro – CANCIONEIRO DO DALCÍDIO - inspirado na prosa de Dalcídio Jurandir – TRÊS CASAS E UM RIO

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

fragmento do livro TRANSTEMPO



"..para viver nesse mundo, não levo muito em consideração espaço que é transponível a cada piscar de olhos e a cada passo. O tempo para mim já não existe mais com suas convenções cronológicas e calendárias. Por isso não tenho história, vivo no agora, como contemporâneo do passado e do futuro."





- Benedicto Monteiro

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Fragmentos do romance “ A Terceira Margem” - terceiro volume da tetralogia amazônica do Romancista Benedicto Monteiro

...A água vinha por todos os lados. Fora das águas também não se enxergava. Eram suas cores negras que molhavam...
...Houve então, a invasão das águas. Parecia que a noite inteira era líquida e se derramava por cima do barco. Pra mim, paresque ficamos balançando por perto dalguma margem. Tanto o tempo não era tempo, como a noite não era noite e mata não era mata. A chuva, de tanto negra que era, tinha ficado meio-branca ou sem cor, paresque. Foi aí que me deu um relâmpago que rasgou o mundo em dois pedaços. Não sei se fogo entrou por dentro de mim ou se fui eu que entrei por dentro do fogo. A luz me cegou de repente e me alumiou inteiro por dentro. O branco da luz virou de novo paresque em todas as cores. Cores vivas, o senhor pensa. E o negro de tanto negro virou de novo numa estranha claridade. Claridade que paresque era mais de pensamento...
...O silêncio era como a luz que a gente não via, mas que também não escutava.
...e, quanto mais eu remava, mais a água ficava da cor da noite, da cor da luz, da cor do céu e da cor do vento. Cismei logo que fosse as maranhas dalgum encante, cobra-grande, boiúna, yara ou encante só da própria água.
...Tudo era espaço e tempo vago. Verde e vago. Verdevagomundo. Fi aí que eu me perdi na mais pura claridade. Era paresque claridade do verde, da água, da noite e do silêncio. Pensei que era a morte, que eu estava morto. Pensei que eu estava bem no fundo. Mas, nesse mesmo instante, neste justo e exato momento, foi que a água e o céu se abriram e surgiu uma praia branca.
Todos os verdes e todas as cores se resumiram naquela praia. E não tinha princípio nem fim. Era uma distancia. Era paresque uma margem...mas uma outra margem.