terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

No dia em que completaria 88 anos, um texto sobre um rio no qual Bené mergulhou.

No dia em que o escritor Benedicto Monteiro estaria completando 88 anos, a escritora Wanda Monteiro (filha de Benedicto) faz um relato sobre Miguel, o personagem que Bené criou de si mesmo.
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"Benedicto criou Miguel para ser
o guardião de sua Palavra-Raiz,
Porta-Voz de seus Verbos,
e o fez personagem de si mesmo:
Uma Alegoria Viva de seu Sonho".




O "O Homem Rio" foi a última e mais dolorosa obra escrita por Benedicto Monteiro, esse livro apresenta a saga de Miguel do Santos Prazeres, na busca de um novo lugar e na busca de respostas para sua visão de mundo. Uma história que demonstra o quão impactante é a descoberta da cidade grande para o homem ribeirinho – é a história de muitos Beneditos contada por Miguel.

Miguel dos Santos Prazeres trata-se, na verdade, do alter-ego de Benedicto Monteiro. Atesto isso pelo que conheço de sua obra e por ter acompanhado de perto grande parte de todo o seu processo de criação literária e produção editorial de sua obra. A gestação de Miguel foi iniciada com o Conto "O Precípicio" - publicado na Revista Norte N° 1, em 1958- e começou a evoluir a partir do livro de contos "Carro dos Milagres".  O dizer de Benedicto Monteiro, no que tange à sua proximidade e cumplicidade com a natureza, e, sobretudo no que diz respeito as suas angústias e inquietações frente às injustiças sociais, à intolerância e ao preconceito por parte das classes dominantes e dominadoras, se faz pela fala de Miguel.

Esse dizer é o que constrói todo o eixo político de sua obra literária. Miguel diz em sua prosa, vestida de poesia e circundada pelo devaneio verde e líquido do caboclo ribeirinho, o que Benedicto Monteiro não pôde dizer na linguagem dos discursos, na retórica de sua oratória, num momento em que lhe foi usurpado o direito de se expressar como cidadão e político. Esse direito lhe foi usurpado pelo Golpe Militar de 1964, nesse momento de sua vida, ele recorreu à literatura para expressar livremente o seu pensamento. E mesmo depois de seu retorno à militância política, quando foi absolvido do processo que foi instaurado pela Justiça Militar, o Miguel dos Santos Prazeres, perfilado em “Verdevagomundo”, "Minossauro", “A Terceira Margem” e em "Aquele Um" e depois em "O Homem Rio", continuou sendo meio e fim de todo o seu ideário e de seu imaginário poético.

Miguel Dos Santos Prazeres, personagem-elo de sua saga amazônica passou a ser o leito fecundo de um rio que Benedicto Monteiro mergulhou e navegou para manter vivo o seu sonho. O personagem serviu para guardar, viva, a voz e o grito contido do jovem político - e para dar ressonância à voz do Poeta que desenhou em prosa e verso sua memória de amor e dor, de vida e de morte, em defesa da Amazônia e dos Amazônidas.  Benedicto criou Miguel para ser o guardião de sua Palavra-Raiz, Porta-Voz de seus Verbos, e o fez personagem de si mesmo: Uma Alegoria Viva de seu Sonho. Da fala de Miguel escorre o dizer do jovem inquieto e inundado de utopias, do poeta libertário e libertador, do político transformador ávido por conquistas e justiças sociais. A linguagem de Miguel é arquitetada pela fala de todos os Benedictos e carrega em si, a síntese de todos eles: do Amazônida que carrega toda a herança memética de uma civilização de gente vivente e movente desse mundo de águas e, de gente que nasce encantada, que vive no espanto, que cresce e morre dentro da natureza sentindo-se parte dela – só parte dela e, nunca, mais do que ela.

Wanda Monteiro

Um comentário:

Elza Fraga disse...

Linda homenagem ao seu papai, minha querida.
E, como você disse:
POETAS NÃO MORREM. SE ENCANTAM!
Bitokitas e luz na estrada.